O canto das sereias

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O canto das sereias

Odette Branco

Nos momentos mais difíceis, Ângela lembrava-se do mar, do mar imenso que deixara na aldeia costeira onde crescera. A única lembrança boa que recordava da terra natal. Desde os quinze anos que não voltara aí. Mas chegara o momento temido de recordar o passado que tantos anos demorara a enterrar.

Théo, quando soube que Ângela previa ir a Portugal, fez uma birra enorme para que o deixassem acompanhá-la. Esta, sem lhe explicar porquê, recusara-se e o menino amuara vários dias. Era uma criança inteligente que crescera livre das assombrações dos Rosmaninho. Observador, em certos momentos parecia pressentir os não ditos dos adultos e atormentava Ângela com questões sobre a família que ficara em Portugal e que não conhecia.

Ninguém lhe contara a história trágica ocorrida na família e assim permaneceria para o seu bem. A Tia Carlota poupara-o ao ostracismo da sociedade pequenina e cruel de Alencar quando o registara à nascença como seu filho. Enganara a sociedade e a lei. Ângela, que era a verdadeira mãe, tornara-se na prima favorita e confidente da criança. Uma mentira, que muitos classificariam como cruel, mas mais aterradora seria a verdade. Não prejudicaram ninguém, tinham-no feito para preservar o que sobrara da integridade familiar. O menino admirava Ângela como se fosse uma irmã mais velha.

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Breve apresentação de

“O Canto das Sereias”

“O Canto das Sereias” é um romance que leva o leitor para os meandros de uma intriga onde as personagens são postas frequentemente perante decisões impossíveis. O enredo desenrola-se entre os anos 60 e o limiar do nosso século, num universo marcado pela violência e pelas ambições de um clã, a famílila Rosmaninho, no seio da qual domina a tirania de Sebastião Rosmaninho, abastado comerciante de tecidos, autêntico patriarca.

Catarina, uma das suas filhas, após uma relação escondida com o noivo da sua própria irmã, Carlota, engravidou. Para salvar as aparências da família e evitar um escândalo, Sebastião Rosmaninho faz uma proposta odiosa a Tomás, filho de lavradores, que se encontrava num impasse, sem meios para saldar as dívidas da sua mãe, viúva, ex-empregada de Sebastião: o solar dos Rosmaninho e a mão de Catarina se ele aceitar a paternidade do filho do outro, seu rival. No entanto, quando Catarina recebe o solar como dote de casamento, as relações familiares agravam-se. Catarina dá à luz duas gémeas, Ângela e Flor. A partir daí Tomás desenvolve um conflito permanente consigo mesmo. Aos 15 anos, Ângela é violada pelo padrasto. No auge do sofrimento, Catarina põe fim ao inferno matando Tomás, para em seguida se suicidar. As duas meninas são levadas para Paris pela tia Carlota, que reivindica para elas o solar. Ângela, que entretanto atingira um certo êxito no mundo literário parisiense, regressa a Portugal para fechar o negócio do solar. Mas os pretendentes não faltam e o solar torna-se alvo de rixas intermináveis na família dos Rosmanino. Algures numa praia do litoral minhoto, Ângela encontra um amigo de infância e ouve o canto das sereias que lhe permitirá, talvez, realizar os seus sonhos. E será neste confronto entre sonho e realidade que Ângela terá de definir o seu caminho.

Girando em círculos concêntricos e excêntricos, Odette Branco explora todos os elementos do enredo, numa escrita justa e depurada, demonstrando o seu conhecimento das emoções humanas, a sua capacidade de observação e de descrição da brutalidade das relações familiares num meio impregnado de um forte atavismo social.

Dominique Stoenesco

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Odette Branco nasceu em Paris, no bairro de Montparnasse, de família portuguesa originária do Alto Minho. Após os estudos secundários fez uma formação de 3 anos na área da moda e do desenho, especializando-se em Artes Plásticas e Cerâmica Artística.

O romance O Canto das Sereias, que surge agora numa reedição revisada, é o seu primeiro livro, mas Odette Branco tem outros preparados, nomeadamente As Filhas da Lua (romance) e um livro de literatura juvenil em co-autoria com Inês Branco, uma das suas filhas. Em paralelo Odette Branco colabora na revista “Latitudes-Cahiers Lusophones” (Paris), através de entrevistas e artigos, e também faz traduções literárias.

e-mail: odettebranco-letras@hotmail.fr

notica da apresentação em França: http://www.lusojornal.com/franca/index.html

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AUTORA: Odette Branco
EDIÇÃO: Junho 2010

122 páginas | 15×23 cm | isbn 978-989-8400-05-5 |
pvp 11,60 €

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